sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Mais um ano! 19/08/2011

Mãe, hoje faz três anos que não a temos pertinho da gente fisicamente. Sinto sua falta? S-I-M. Mas posso dizer que, neste último ano, as coisas ficaram um pouco mais fáceis. Vivia repetindo mentalmente que aquele nó no estômago, aquele vazio, aquela sensação de que algo está errado e de que nunca mais seria a mesma coisa e que nunca mais poderia sentir a mesma paz, conforto e leveza que sempre senti iria passar pouco a pouco. E passa mesmo. O tempo...
ah, como o tempo pode ser o nosso melhor amigo. Acho que já saí da fase de querer a todo custo que fosse diferente, de querer que a senhora estivesse aqui conosco acompanhando cada fase de nossas menininhas e de mim como mamãe e pessoa. A tal da aceitação, sabe? Acho que aceitei o fato. Não gosto. Não queria que fosse assim. Mas entendo que às vezes é assim mesmo. E a vida se refaz. Uma nova estória se contrói. Foi difícil começar a entender que apesar desta tragédia, eu posso ser feliz de um outro jeito. Que ficar bem não quer dizer que sua presença em minha vida não faz falta. Faz falta sim. Muita. Mas eu posso tentar aprender a ser eu mesma sem você aqui junto comigo. E isso não quer dizer que você não é essencial em nossas vidas. Confuso? Sim, mas é que estou começando a entender certas coisas e quando isso acontece, o discurso fica um pouco prolixo, cheio de nove horas pra tentar explicar o óbvio: me sinto um pouco culpada por querer seguir adiante nessa nova estória e senti isso mais especificamente na reforma de nossa casa.
Fazia muitos e muitos anos que a sua casa (agora minha e de minha família) não era pintada e cuidada como deve ser (quase três anos de foco apenas na sua condição de saúde e nenhum foco na casa e após sua morte, dois anos e nove meses de fuga inconsciente e foco nas menininhas). E o resultado foi uma casa velha, encardida, com pintura expirada e exatamente com a mobília que você escolheu há anos atrás no exato mesmo local que você escolheu anos atrás. Mas em junho deste anos, iniciamos a reforma tão necessária já que os planos de construção de nossa casa nova não poderia ser concretizado tão cedo e tudo começou a mudar: criação de novos aposentos, piso novo, pintura totalmente diferente do que era, reforma total de banheiros, reforma de móveis e aquela sensação de vida nova invandindo o ar. Ainda estamos no caos já que estamos morando em casa e a reforma já se estende por 2 meses e meio. Mas mesmo assim, mesmo em meio a poeira sem fim, cheiro de tinta, cinco pessoas a mais convivendo conosco e ouvindo radio o tempo todo, mesmo assim, me sinto renovada. E também um pouco culpada. Sei que é necessário colocar aquela vida dita perfeita pra trás, mas parece que estou traindo o meu amor por você e por nossa estória por ousar dizer que posso tentar viver bem sem você ao meu lado. Olha só que confusão. Sei que não é bem assim, mas na prática, as teorias são outras, é o que dizem, não é?  
Mas fica a pergunta: será que algum dia vou realmente ficar bem e me sentir só bem por isso? (E olha que iniciei esta carta dizendo que após tanto tempo estava me sentindo melhor, hein?)
Mas ao mesmo tempo, o nó na boca do estômago já passou, já não choro tanto como chorava (de fato, acho que chorei ontem e hoje depois de muito e muito tempo), já não sinto abandono, nem raiva e já estou sabendo viver bem sem você (sempre frisando que gostaria sim que estivesse aqui, mas ao mesmo não me lembrando de você a cada instante como antes). 
Sei que gostaria de me ver bem, mas eu ainda não acho que estou bem porque (e estou começando a entender isto) estou focando a questão errada: estou tentando recuperar a menina, a adolescente e a jovem que fui e todas as minhas qualidades. Mas pensando bem: como é possível ser a mesma pessoa depois de passar por uma situação de perder alguém essencial? Vivo buscando a leveza de antes, mas aquela pessoa de antes morreu quando você morreu, mãe. E é claro que eu nunca vou achá-la ou recuperá-la. A pessoa de agora é diferente e resta agora, a descoberta: Quem sou ou estou agora? O que me faz bem? Quem me faz bem? Ah, e não é fácil fazer isso na maturidade e na maternidade recente. Não é fácil admitir que já não gosto de fazer as coisas que sempre amei, que meu foco agora é outro, que é hora de mudanças, de jogar a roupa velha, de descobrir e dar colo a esse novo eu.
É hora de esquecer (ou perdoar, se possível, pelo meu próprio bem) que não tive o colo e apoio real e constante de pessoas que imaginei que seriam minha fortaleza nesse processo do luto. Parar de me lamentar, sabe? Se não me procurou ou não me procura significa que não sou tão importante assim e ponto final. Fazer o que? Hora de me voltar a meu ninho apenas ou de descobrir novos ninhos (Apesar do Ni viver me dizendo que as pessoas não fazem por mal. E eu sei disso. Sei também da vida corrida de toda a humanidade, mas mesmo assim, me senti um pouco abandonada nesse processo do luto, não apenas no dia do acontecido...)  
Mas, é hora de aceitar que aquela leveza pura de antes, eu nunca mais vou sentir, mas nem por isso, eu devo me culpar. Não sinto e pronto. Mas buscar uma leveza altenativa, só me faz e me tem feito bem.
Hora de abraçar esse meu novo eu que é mais quietinho, que infelizmente enxerga mais a crueldade e descaso do ser humano, que não gosta de estar rodeada de pessoas como antes, que sente conforto em estar com cada vez menos pessoas ou simplesmente só por alguns momentos, que está em busca desse novo eu, que gosta mais de ouvir do que falar, que não vê o mundo como muitos vêem, que quer sair do foco de chamar atenção, que quer ficar cada vez mais em casa e é feliz sendo assim.
O que está me incomodando é ter que falar quando quero ficar quieta, é estar rodeada de gente em minha vida profissional (ou pessoal) quando queria ter que lidar com cada vez menos pessoas, é estar ausente de casa e longe de minhas menininhas quando o que só queria era estar com elas ou cuidando de minha nova casa. Menos é mais. Sempre soube disto, mas agora preciso de cada vez menos coisas e cada vez mais tempo com poucas pessoas. Se gostam de mim e me valorizam, abro os braços. Se não, deixa pra lá. Não vou me doar para quem não se dôa para mim. Nada mais justo. Via de mão única, nunca mais. Antes não via isso, não necessitava que fizessem por mim também, mas agora enxergo e fazer o que?
Vejo que o ser humano pensa muito em si e nos seus e sem querer menospreza ou nem perecebe os outros. Não deveria ser assim. Mas é. Então, o melhor é procurar estar longe de pessoas totalmente assim (um pouco todos somos). Vejo que há tantos mal entendidos na vida simplesmente porque as pessoas não param para prestar atenção de verdade no outro e no que ele está tentando realmente dizer com palavras ou ações. Tudo é feito com muita pressa, seja na vida real ou na vida online. E dá-lhe mau entendidos. E sempre acham que estão com a razão.
Esse novo eu já não gosta de bichinhos como antes. Esse novo eu quer aprender a costurar, cozinhar, limpar a casa, lavar roupa, mas continua apaixonada por ler, escrever, fotografia e ainda sonha em viajar para os mesmos lugares de antes. Não gosto mais de perder tempo com o que não é recíproco ou verdadeiro de fato. Sempre imaginei que as pessoas ou situações pudessem mudar. Mas agora não espero mais se não sei se vai valer a pena de fato, pois só existe o dia de hoje. Sempre soube disso e sempre valorizei meu momento presente, mas agora muito mais ainda.
Às vezes acho que fiquei mais amarga, mas continuo ainda muito doce. Só não gosto mais de perder tempo com o que não for essencialmente essencial.
Mãe, não te ter por perto me deixou sem rumo. Demorei, mas entendi que vou ter que reconstruir minha estória. Sei que nos capítulos que seguiram sua morte, eu estava meio anestesiada e mesmo sem perceber não tive a oportunidade de viver esse luto como deveria. Em 2008 (ano de sua morte), escolhi (sem ter consicência disto) viver com plenitude o finalzinho de minha segunda gravidez, o início da vida de nossa pequena e a alegria de nossa pequena maior ao ver chegar sua irmãzinha. 2009 foi da mesma forma. 2010 foi o período mais confuso, o de encarar de frente tudo isso, mesmo querendo fugir, mas não tendo mais como fazer isso e sabendo que era necessário para minha sanidade e felicidade presente e futura. 2011 está sendo o ano de aceitação, da mudança, de trocar a roupa velha e abraçar essa nova vida que não escolhi, mas que está ao meu alcance. E como sempre, um passo de cada vez. Sem pressa. Mas com muita saudade. Mas não mais da vida perfeita de antes. Saudades de nossas conversas, nossos passeios, nossos momentos juntos fazendo nada, de você ali me aconselhando ou até discordando de mim. Saudades!
Mãe, vou terminando por aqui: as menininhas querem atenção. Lembre-se sempre: te amamos muito ontem, hoje e sempre.

Com muito carinho e até a nossa próxima carta,
Sua filha,
Luciana

P.S. Hoje eu queria ter ido ao cemitério junto com meu pai pra chorar, conversar, ficar junto dele e orar. Mas chorei muito ontem a noite, amanheceu um dia horrível de tanto vento, poeira e sem sol, depois choveu e o tempo melhorou um pouco. Quando vi, estava fazendo sozinha o que mais gostava de fazer com você: sair à toa no centro da cidade, olhando vitrines, comprando algumas coisinhas sem importância e me divertindo. Sozinha, mas não solitária. Feliz com nossas lembranças. Só faltou ir à banca de revistas. Amanhã quem sabe eu vá. Porque acabei vindo pra casa e fiquei com meu pai um pouco. Quem sabe a gente vá no cemitério no seu aniversário como no início do ano. Ou não, não sei. Vamos ver o que diz nosso coração. Afinal, é lá que está a sua lembrança. Beijos de todos nós! Te amamos!

Nenhum comentário: