sexta-feira, 29 de abril de 2011

A casa marrom e o Dia das Mães! 29/04/2011



Carta para minha mãe:
Mãe, o dia das mães está chegando e como não posso pular esta data e nem me esconder estou aqui ,daquele jeito, sem saber direito o que fazer. Mas mãe, eu queria te confessar uma coisa: este ano não estou triste pela sua ausência. Estou brava. Não quero mais ficar triste. Cansei de ficar triste. Cansei de querer a sua presença em nosso dia a dia. Cansei. E já que estamos desabafando...
queria dizer que cansei de querer me mudar de nossa casa.
Como já deve saber, ainda estamos na sua casa, na nossa casa. Ainda não deu para nos mudarmos e nem mexer em nada. Tudo continua praticamente do jeito que era antes. Quer dizer, mesmos móveis, mesma disposição de tudo, mesma pintura, tudo praticamente igual. Uma diferença: a casa está muito mais desorganizada. Se estivesse aqui, estaria surtando de ver tanta bagunça e sujeira, o que nunca existiu dessa forma antes. Mas fora o fato da pintura das paredes e das grades e portas estarem horríveis e isto deixar a casa com aparência de sujeira, temos agora duas menininhas bem danadinhas que deixam a casa de pernas pro ar. E eu não queria que fosse de outra forma. Mas ficar aqui não faz bem.Com a casa com a pintura velha, suja, desorganizada ou não.
Sei que a dor e raiva de não poder ter alguém importante conosco é levada aonde quer que possamos estar, mas continuar no mesmo lugar não ajuda muito. Aonde olhamos, tem algo que traz lembranças. Fora as que ficam na mente, na alma e no coração. Não é fácil. Não é. Simples assim!
Alguém pode perguntar: Por que não nos mudamos? Ah, se tudo fosse fácil assim. Mas ir para onde? Alugar uma casa e alugar a nossa? Ou assaltar um banco e assim poder comprar ou construir outra? Querer, eu queria e muito. E aguentei até agora (2 anos e 8 meses depois que você se foi) porque achei que fosse ser mais fácil construir a nossa, mas não foi. E aqui estamos!
Estava com esperança de nos mudar. De construir nossa casa logo. E foi isso que fez com que eu aguentasse ficar aqui tanto tempo. Mas não deu. Por diversos fatores. Mas chega. Não vou esperar a casa nova. Vamos reformar essa. Vamos pintar. Vamos gastar dinheiro que seria para nossa futura casa, mas vamos fazer diferente. Vamos nos reinventar. Aumentar um cômodo. Diminuir outro. Acabar com um. Transformar em outro. E vamos pintar. Adeus paredes brancas sujas. Adeus grades e portas encardidas. Adeus passar na chuva para irmos ao fundo. Adeus passar pelo Bonnie e tentar escapar de suas lambidas e pulos. Adeus à enraízada dor de não se conseguir seguir adiante.
Já nos libertamos e conseguimos viajar para longe (meu aniversário, lembra?). Já compramos geladeira nova, fogão novo e televisão nova (só chegou a tv e ela é linda e enorme). Já estamos no final da decisão de quem vai reformar e pintar. Amanhã saio para comprar dois guarda-roupas novos e semana que vem vou ver quem vai reformar os estofados. Já comprei e mandei enquadrar os posters do quarto das menininhas e já vi o orçamento da mini biblioteca delas. Humm, deixa eu ver que mais...Ah, a casa vai ser marrom e branca. Todo mundo aqui em casa está com medo dessa cor, mas eu tenho tanta certeza disso que não consigo nem ouvir outra opinião. Paredes marrons aonde eu puder colocar. Sabe por que? Bem, primeiro porque estou traumatizada com paredes brancas sujas e segundo porque quero uma mudança drástica, bem diferente de tudo quando ainda éramos uma família feliz sem a sombra da saudade de alguém especial.
Marrom: terra, chão, novas raizes, estabilidade, força, superação. Essa cor vai ficar pesada demais? Não. Pelo contrário, vai trazer leveza ao meu coração. Digamos assim: não quero mais branco. Branco significa agora para mim, a saudade, o vazio. Marrom, a superação. E assim será. E se eu enjoar? Pinto de qualquer outra cor, até branco, mas agora é essencial ser dessa cor. Dá para me entender? Sim, eu sei que complico as coisas às vezes, sei que ponho significado e profundidade aonde outras pessoas podem não entender, mas na minha mente tudo faz sentido. E se for me trazer um pouco mais de paz, por que não?
Mãe, sentir raiva sempre me ajudou a superar coisas. E estou feliz por finalmente sentir raiva de não poder ter você ao nosso lado. Raiva. Muita raiva. Estou indiferente. Estou dura. E isso é bom, mãe. Você sabe disso sobre mim. Me impulsiona a seguir adiante. E eu preciso seguir adiante porque estou ficando amarga com relação a tanta coisa. Coisas que não sei se poderei reverter, então por isso a raiva vai me libertar. Amarga, não quero ficar mais. Com raiva, sim, pois pode me ajudar. Eu sei. Pode não fazer sentido, mas finalmente eu vejo as coisas com um pouco mais de clareza agora: a-c-a-b-o-u. Não adianta eu fazer ou sentir mais nada. Tudo vai ser inútil. Não adianta eu querer não ter passado por nada disso. Não adianta eu ficar imaginando como seria. Nada disso adianta. Acabou. E eu tenho que me reiventar. Aquela Luciana foi morrendo lentamente quando você se foi mãe. E essa nova, ainda me assusta. Não seu direito quem sou, do que gosto, de quem gosto ou do que quero ser quando crescer, sabe? Muitas certezas e convicções se foram. Estou me redescobrindo. Estou mais realista e um pouco mais amarga. E vejo coisas sobre as coisas e pessoas que preferia não ter visto, pois me fazem sentir mais sozinha nesse mundo. Mas meu amor por minhas menininhas, meu Ni e meu pai me ajuda a seguir adiante. E me sentir amada por eles e por outras poucas pessoas nessa jornada desde o dia que meu mundo desabou me ajuda a seguir adiante.
Se eu pudesse, agora seria a hora do filme que a mocinha pegaria quem ama, entraria no carro e iria embora para tentar uma nova vida em um novo lugar. Sem nada. Só as malas com roupas, livros, cds e coisas assim. Chegaria em um lugar novo, estranho, sem conhecer direito as pessoas, me sentindo uma estranha no ninho. Porque é assim mesmo que me sinto na maioria dos dias quando estou fora de casa. Dentro de casa, a vejo em cada detalhe, mas me sinto protegida.
Bem, embora queira muito às vezes, não posso ir embora para outra cidade ou outro país, mas logo, logo vou poder entrar em uma casa marrom. E aí, vou poder me sentir um pouco mais leve. Estranho, não? Mas a vida é estranha, às vezes, não é?
Saudades, mãe, muitas saudades, raiva também, mas no processo de me abrir para sentir mais leve. A porta da mudança vai ser aberta. E se não for, você pode me ajudar a derrubá-la se preciso for?
Beijos com carinho,
Sua filha Luciana (será que mudar de nome ajudaria neste processo? :)
P.S. Ah, esqueci de mencionar: marrom, branco e alguma coisa de rosa, é claro. Senão a Ana Luisa vai ter um ataque de tristeza. E por consequência sua irmãzinha menor também já que se Tico quer ou faz algo, Teco desespera para ter ou fazer igual. Mãe, ainda bem que eu tenho essas duas coisinhas danadinhas senão...senão nada porque nem sei e nem quero pensar. Deus nos deu a melhor forma de ser feliz depois de nossa tragédia particular.

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