terça-feira, 24 de agosto de 2010

Conversa com a Ana Luisa!

Antes que você leia esta postagem, devo avisar que vou contar algo importante para mim e para minha família: a minha conversa reveladora com a Ana Luisa sobre a vovó Jaci. Acredito que será longa, mas poder falar sobre isso significa que estou caminhando, que estou tentando seguir em frente. Passos leves, paradas, passos apressados, algumas outras paradas, mas seguindo em frente.
Pensei em falar sobre coisas alegres, sobre as gracinhas e artes de minhas menininhas, sobre as falas engraçadas da menininha maior e das transformações e ações fofas da menininha menor. Afinal, tenho tanta coisa assim para falar e todo mundo já tem seus problemas. Leveza é importante, mas pode ser que me entendam melhor ou que entendam o que passa com alguém que perde alguém essencial em sua vida. O que dizem é verdade sobre quem mais precisa de ajuda: quem não demonstra precisar e mesmo quem parece ter tudo que poderia ter para ser feliz de verdade e por inteiro. Mas vamos lá:

Quando minha mãe faleceu, a Ana Luisa tinha 2 anos e 1 mês e eu estava grávida de 8 meses de nossa Ana Júlia.

A notícia veio na madrugada que iniciaria o dia 19 de agosto e aconteceu há dois anos atrás. E tudo o que aconteceu depois permanece vívido em minha memória e ao mesmo tempo que parece que aconteceu ontem, parece que aconteceu séculos atrás ou durante aquele tipo de sonho que nos deixa sem medo, mas que também nos deixa sem entender muita coisa e sem lembrar de todo e cada detalhe.

Dois anos: setecentos e trinta dias sem contar para a Ana Luisa toda a verdade sobre sobre a vovó dela.

Nunca mentimos. Nunca fugimos propositalmente do assunto. Nunca tivemos a intenção de chegar a isso.

No dia não a levamos para ver minha mãe. Aliás, não a levamos para ver o seu corpo porque minha mãe finalmente já tinha ido para um lugar melhor, já não estava ali, já não estava em uma cama, com dores e com sofrimentos, já não estava mais em um hospital.

Não pensei racionalmente em não levá-la. Não tive a intenção de poupá-la de qualquer sofrimento. Não sou esse tipo de mãe. Simplesmente a madrugada se foi, a babá chegou, fomos providenciar tudo que precisa ser providenciado nessa hora, voltamos, escolhemos a roupa de minha mãe, comemos algo, a Ana Luisa dormiu porque já era hora do seu cochilo, saímos, passamos pelo momento da chegada ao local onde seu corpo estaria, esperei um pouco, a vi pela primeira vez sem vida e mesmo que não tenha tomado nada para controlar essas emoções, a partir daí não me lembro mais das horas passando.

Lembro apenas das pessoas chegando, do calor de cada abraço, lembro de chorar, lembro de sentir paz, lembro de não sentir nada, lembro que já era hora de comer algo, lembro de ter deitado no ombro de meu pai, lembro que fomos de madrugada para casa, lembro de ter tomado banho, lembro de ter deitado um pouco, lembro de ter conversado com a menininha em minha barriga, de ter beijado e sussurrado algo no ouvido da Ana Luisa que já estava dormindo, lembro de ter abraçado forte o Ni e lembro do desespero que senti quando vi que já tinha amanhecido e que tudo aquilo não tinha sido apenas um sonho.

Saímos de casa antes dela acordar e só voltamos depois e sem condição alguma de conversar.

E assim, os dias passaram, a Ana Julia nasceu e aquele caos maravilhoso tomou conta de nosso lar. E nunca mais falamos abertamente sobre isso com ela e muitas vezes nem entre nós mesmos. Era tudo muito doloroso. Lembro de madrugadas que conversei com meu pai ou com o Ni sobre nossos sentimentos e saudades e dizia a eles que queria contar para a Ana Luisa, mas não sabia como e não sentia que era ainda o momento ideal. Achava que ela ainda não estava preparada e com o certo tipo de maturidade que permitisse que ela pudesse realmente entender e se despedir daquela pessoa tão forte e marcante nesses dois primeiros anos de sua vida.

As duas tinham uma conexão muito forte. Ana Luisa a amava muito. E nem preciso falar da importância da Ana Luisa na vida de minha mãe. Sempre que ela estava perto de minha mãe, ficava junto, perto mesmo, mas com um cuidado com minha frágil mãe de um modo que ela não era com nada e nem ninguém. Ela sempre foi um furacãozinho, mas perto de minha mãe era suave nos movimentos para não machucá-la. Sempre estava dentro da cama hospitalar de minha mãe em seu quarto em casa e sempre perto.

Minha mãe foi internada muitas e muitas vezes nesses dois anos que a Ana Luisa a conheceu. E como tinha sido as últimas vezes, esta última vez que minha mãe foi internada, ela foi de ambulância e a Ana Luisa acompanhou tudo, até do momento que lemos um salmo antes de minha mãe ir pela última vez. E lá se foi a vovó da Ana Luisa e da amada menininha que estava em minha barriga. E ela nunca mais voltou.

Não era o momento de contar. Nem para ela, nem para mim.

A Ana Luisa nesses dois anos sempre falou da avó. Para ela mesma, para nós e com frequência para a Ana Julia. Contava estórias, lembrava de quase tudo, mostrava fotos e tocava no nome dela quando menos esperávamos e assim, sempre ficava sem saber o que fazer e o momento passava.

O tempo voa quando temos crianças em casa. E como sempre ela falava da avó, dominava o assunto e mudava de assunto de novo, eu fui deixando para depois. Mas um dia, a conversa mudou e eu percebi que era hora de eu encarar esta situação de frente. O diálogo a seguir me tirou o chão e me fez perceber que eu tinha que encarar isto de frente:

Eu e a Ana Luisa estávamos sozinha no carro voltando de algum lugar. E como toda criança de 3 anos, ela vinha falando, falando,falando. Aí de repente, ela diz:

-Mamãe, aonde está a vovó Jaci?

Na hora que ouvi essa pergunta, meu corpo e coração gelou. Não sabia o que fazer. Aí, ela brava:

-Mamãe?????

E antes que ela me perguntasse de novo e eu não soubesse o que responder, fiz o que fazemos quando não sabemos o que fazer:

-O que? O que você perguntou pra mamãe?

Ela toda brava disse:

-Manhê, eu perguntei aonde es-tá a vo-vó Ja-ci!!!!

Eu fiz que não ouvi de novo e fui salva por um enorme cachorro que estava latindo e correndo igual a um louco.

-Mamãe, você viu que cachorro grandão, mamãe?

E depois disso, minha vida não foi mais a mesma.

A Ana Julia, nossa bebezinha, já não era mais tão bebê. Ela já estava com quase 1 ano e 6 meses e eu envolvida com o seu desenvolvimento que tanto exigia, com as necessidades e desejos de uma outra menininha de 3 anos, na pressão e exigências profissioanais de quem tem negócio próprio ainda não tinha tido tempo e espaço para lidar com a dor da perda de minha mãe do jeito que precisaria para tentar seguir adiante. Falta de tempo e espaço me prenderam na dor que nem eu sabia que sentia tanto. Eu sentia muita tristeza, vazio e saudade, mas quando ela me perguntou diretamente sobre minha mãe, eu precisava saber o que fazer e não sabia e a partir daí, tudo piorou. Sozinha, sem ter com quem conversar a não ser com meu pai e o Ni (as pessoas já não perguntavam mais, já não se solidarizavam tanto já que mais de um ano já tinha se passado) e fui ficando sem ar.

Soma-se a isso cobranças e pressão profissional, horas e mais horas sendo sugadas por algo que já não me interessava tanto quanto minha necessidade de me encontrar e me fortalecer e pelo meu desejo de me dedicar ao que mais importa nesta vida: a família e a paz de espírito.

Além disso tudo, ainda moramos na casa que respira minha mãe aonde quer que vamos e estamos pagando empréstimo profissional para nossa nova empresa, o que significa que os planos de construir e nos mudar terão que ser adiados mais um pouco. E o mais difícil: eu sentia muita falta de minha mão como amiga, conselheira e companheira. Ah, e como sentia falta da vovó de minhas menininhas...

Tenho poucos, mas bons amigos, mas com toda a correria de minha vida e da vida de todos, fica difícil a conversa aberta e de apoio. Além disso, quem não passou por uma morte de alguém tão próximo como uma mãe tão presente não tem como ter idéia de todo tipo de sentimento que vive e revive alguém nesta situação. Aparentemente, eu estava bem, mas no fundo não estava.

Demorou, mas procurei ajuda. Foi difícil chegar à conclusão que com o tipo de vida corrida e sem tempo e espaço para tentar me recuperar sozinha, eu precisava de ajuda. Fui e, apesar da desconfiança do começo, tem sido de extrema ajuda.

Nesse meio tempo, vimos um gatinho morto perto de casa e vi que era a forma que Deus me apresentou para eu iniciar a falar sobre o acreditamos aqui em casa. Tudo foi perfeito e ela começou a falar sempre sobre o gatinho que tinha morrido e ido para o Céu...

Logo depois, ela achou um album de quando tinha três meses e em uma das fotos do natal daquele ano estava nosso primeiro labrador preto, o Zulu, que morreu logo depois. Ela viu sua foto e achou que fosse nosso outro labrador preto, o Bonnie. Aproveitei e falei sobre ele e que havia morrido também assim como aquele gatinho. E assim, ela começou a falar sobre o Zulu...

E assim, na correria da vida foi chegando o aniversário da morte de minha mãe. Na noite anterior, a Ana Luisa que havia dormido relativamente cedo, acordou e era a vez do Ni dar atenção a ela, mas ele estava dormindo, então eu acabei indo ficar um pouco com ela.

Chegando lá, ela estava toda amorosa dizendo o quanto me amava e me abraçando apertado. Ainda não era lua cheia, mas estava claro pela luz da rua e até da própria lua. E de repente, eu senti que era o momento. Senti um frio na barriga, mas senti paz também:

-Ana Luisa, você está acordada?

-Tô mamãe. Por que?

-Não, meu anjo. Por nada...

Silêncio...

-Ana Luisa, posso te falar um coisa?

-Pode mamãe...

-Você sabia que a vovó Jaci está lá no Céu?

-No Céu, mamãe?

-É, no céu...ela estava velhinha e bem dodói. Você lembra? Você lembra que ela ficava na cama e andava de cadeira de roda?

-Sim, mamãe... ... ... Mamãe, ela está lá no Céu com o gatinho e com o Zulu?

-Tá sim, minha linda... ... ... Você se lembra que a mamãe falou que o Céu é o lugar que as pessoas e os bichinhos vão quando morrem?

-Lembro...

-Então, a vovó Jaci morreu e foi para o Céu.

-Morreu?

Silêncio...

-Mamãe, eu também vou para o Céu?

-Vai sim, meu anjo, mas não agora,tá?

-Ah, mamãe, lá no Céu tem anjinho, não é mamãe?

-É... ... ...

Silêncio...

-Ana Luisa, vamos fazer Papai-do-Céu?

-Vamos...

-Você sabia que quando você fizer Papai-do-Céu você pode mandar um beijo e um abraço para a vovó Jaci?

-...

-E você sabia que a vovó Jaci está sempre lá em cima te protegendo? Você pode falar com ela, tá?

-Tá...

-Então, vamos fazer Papai-do-Céu?

-Vamos. Mas NÃO fala "guarda", tá mamãe? Eu falo...

-Tá, Ana Luisa. A mamãe já falou inúmeras vezes que vai falar "proteja"... Quem começa?


Eu e ela juntas:

-Papai-do-Céu, muito obrigada pelo dia, pela comida, pela minha família e por meus amigos. Obrigada por tudo! Me proteja e (não fala mamãe, eu falo sozinha) "guarda..." sempre. Em nome de Jesus. Amém.

Eu:
-Ana Luisa, vamos mandar um beijo e um abraço para a vovó Jaci?

Ela:
-Vamos...


E assim dormimos aquele dia!

Mãe, sinto muito a sua falta e ainda sinto um grande vazio por esta ausência. Sinto falta de sua voz e de teu amor incondicional por mim. E de ter alguém para conversar e me aconselhar na hora que eu mais preciso. Mas estou sentindo que este é o recomeço singelo que estava buscando.

Ana Julia, a vovó Jaci não chegou a te conhecer fora da barriga da mamãe, mas te fez muito carinho enquanto você ainda estava dentro da mamãe. E conversou muito com você. Além disso, seu nome é Ana Julia em homenagem a ela. Um dia a mamãe te conta tudinho sobre essa pessoa que a mamãe queria tanto que tivesse te conhecido. Você iria gostar muito dela. Ela não está mais aqui entre nós, mas muitas das coisas que acreditamos vem dela. Assim como vem do vovô, dos outros vovós, da mamãe, do papai, da sua irmã e de você. Família é assim. Um aprende com o outro e nunca abandona ou é abandonado. Somos todos diferentes, mas somos um só. Sua vovó também vive em você através de sua própria vida e de nossas tradições e costumes. Amo você!

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