terça-feira, 2 de setembro de 2008

LUTO: Mãe,ontem, hoje e sempre! 02/09/08_36 semanas


Hoje faz duas semanas que minha mãe faleceu!

Nesse período a gente passa por tantas fases que ao mesmo tempo que parece que faz muito tempo, as lembranças do momento da notícia parecem ser as de alguns minutos atrás.

Claro que sei que ela já vinha doente há muito tempo, que estava debilitada, sofrendo, não sendo totalmente ela mesma e que cedo ou tarde isso poderia acontecer, mas em nada, em nada mesmo, saber desse fato diminui essa dor e esse vazio.

Minhas esperanças de sua recuperação estavam diminuindo a cada dia, mas mesmo ínfima, um fio de esperança é melhor do que não poder ter ou sonhar com algo ideal. Não acreditava que esse fio de esperança fosse tão poderoso assim, mas depois que a sensação de que tudo não passa de um sonho vai embora, foi essa a primeira sensação que tive. A primeira depois daquela madrugada.

Aquela madrugada ainda me acorda a noite. Eram entre quatro e meia e cinco horas da madrugada de uma terça-feira. Minha mãe tinha sido internada há quase três dias apenas. Eu tinha plena certeza de sua recuperação. Acreditava que ficaria algumas semanas por lá, como já havia ficado outras vezes, acreditava que voltaria um pouco melhor, passaria um tempo assim e depois sei que algo aconteceria e ela teria que voltar. Mas não imaginava que poderia ser desta vez que iria ir embora do nosso convívio.

A sensação de se receber uma notícia dessas é algo que para poder ser colocado em palavras requer esforço. Aliás, a própria notícia foi dada sem precisar palavras para que eu pudesse entender. Ver alguém chegando perto de você com lágrimas nos olhos durante a madrugada não requer muito esforço para se compreender que algo estava mudando para sempre. O grito de não é difícil de não ser pronunciado, o joelho estremece e as lágrimas caem sem que percebamos.

Durante alguns dias tudo parece irreal, surreal, sonho, imaginação, ou qualquer coisa assim. Sentia que ela estava descansando, que estava bem, sentia paz ao pensar aonde estaria, mas ainda não me dava conta da falta que poderia me fazer. Era como se estivesse em transe, anestesiada, mas a única sensação que me invadia era de descanso dela.

Os dias vão passando e há mudanças de sentimentos e sensações. Ficamos mais sozinhos, as pessoas tendem a respeitar esse momento, mas aí é que percebemos que por mais que ela possa estar bem, nós ainda não estamos. Ver a rotina ser desarmada a força dá sensação de abandono e de desespero. Dá raiva, dá medo, dá vontade de fugir, de não ver ninguém, de não ficar sozinha, de gritar, de chorar, de nunca mais chorar, de entregar-se, de ser forte, de se esconder ou de sair correndo. E essas sensações e sentimentos nos invadem a qualquer momento. Elas vêm através de coisas, de pessoas, de cheiros, de animais, de lembranças e de sonhos. As lembranças e a vontade de que tudo fosse diferente invade no meio de um momento que todos ao seu redor acham que você está bem. E aí você disfarça, muda de assunto, finge, se ausenta e percebe que não tem mais lágrimas para chorar. Mesmo com muita vontade de chorar, elas secam. Aí, em um outro momento quando você acha que está seca por dentro, elas brotam de forma que chega a doer o peito.
Afinal você está bem, mas o deserto que mora em seu peito, deixa sinal que vai ficar mais um tempo por lá.

Você acaba lembrando de coisas que nunca achou que iria ser importante em um momento como esse. Você se sente tão só e ao mesmo tempo tão próximo de Deus. Palavras de carinho e conforto que todos acham que não fará diferença em um momento como esse chegam como bálsamo e colo. Você sente vontade de agradecer a essas pessoas que não fazem idéia do bem que fazem ao tentar te consolar. As pessoas te acham forte e acham que nunca conseguiriam reagir dessa forma, mas a força que recebemos de Deus nesse momento é imensurável. É só deixar invadir seu coração.

Mas é claro que com o passar dos dias, há momentos de raiva e de vontade de que tudo fosse diferente. Sempre fica a sensação de que havia algo ainda a ser vivido. E muito!

Com o passar dos dias e a aproximação do nascimento de minha segunda princesa, vem ao coração a necessidade que ainda tenho dela. Queria muito que ela estivesse comigo nesse momento, no nosso dia-a-dia. Queria muito que ela pudesse ter curtido mais essa minha fase como mãe e tendo uma família. Queria que minhas meninas tivessem tido a chance de conhecê-la como vovó de fato. E que eu pudesse compartilhar com ela todos os meus sonhos, dúvidas, certezas e incertezas. Queria muito viajar com ela, meu pai e minha família. Férias para mim sempre foram sinônimo de convívio familiar. Queria ir para Bonito com todos. Queria ir para a praia. Queria vê-la segurando minhas meninas, andando de mãos dadas com elas, fazendo castelos na areia, brincando no rasinho, ajudando a alimentá-las e cuidar delas quando elas estivessem com medo ou adoentadas. Queria que elas fossem ao parque com minha mãe, que fossem tomar sorvete, que lessem com ela, vissem desenho, brincassem de massinha de modelar, fossem à banca, à igreja e na casa dos parentes e amigos. Queria que ela as visse e crescer e me visse amadurecer como mulher e mãe.

É difícil estar no mesmo lugar que vivemos tanto tempo juntas. É difícil ver objetos e lugares que nos remetem a sua presença. É difícil entender e aceitar que ela não estará mais aqui entre a gente como poderia ser. É difícil aceitar que só na memória e no coração ela estará presente quando existe tanta vontade de viver tantas outras coisas. Mas o que conforta é que vivemos muito a cada dia que estivemos juntas. Tivemos altos e baixos, mas isso é tão insignificante agora que só ficam as boas memórias. Não há arrependimentos do passado, de ter feito algo diferente, só a vontade de viver novas fases com ela.

Mas o vazio ainda existe. Já voltei a trabalhar, dou risada, saio, vejo pessoas, faço compras, mas o brilho do olhar ainda está escondido. Há momentos que me sinto muito vazia e ainda anestesiada. Há outros que me sinto melhor, mas não ainda bem. Vamos tentando ficar em pé, vamos tentando seguir em frente, tentando não demonstrar aos outros todo o vazio que sentimos porque há ainda a esperança de nos sentir melhor. Tentando não falar disso o tempo todo para dar a chance de sorrir para a vida que não pára. A vida segue em frente, te arrasta, te empurra, te engole. Às vezes dá vontade de que o tempo pudesse parar porque só assim daria tempo de catar os pedacinhos que vão ficando para trás nessa corrida louca da vida para a frente. Mas ela não pára! O sol continua a nascer e se por. Minha barriga continua a crescer cheia de vida dentro dela. Assim como a vida aqui fora com minha princesinha.

Anestesiada ainda, mas seguindo em frente. Assustada ainda, mas seguindo em frente. Com muita saudade do passado e do futuro ainda, mas seguindo em frente.

Seguindo em frente! Não por vontade própria todos os dias, mas porque assim é a vida. Ela não pára!

Não sei se o brilho no olhar voltará a ser como era antes. Mas ainda não quero saber. Só sei que vou ser feliz porque, apesar de qualquer coisa, já sou! Só vou ter que redescobrir como viver sem sua presença e esperança. Só vou ter que reaprender a sonhar a vida de uma outra forma sem sua presença no nosso dia-a-dia.

Quero só pensar no dia de hoje. Tentar viver bem o hoje! Acreditar que essa dor vai diminuir, que a sensação de incompletude, ou qualquer palavra que possa representar essa sensação de se estar incompleto, vai diminuir, que a saudade e vontade de estar junto vai diminuir ou ser de uma forma que não nos paralise e que vamos reaprender a viver sem sua presença em nossas vidas. Que a saudade não nos deixe vazio, mas sim que apenas nos preencha.

Um dia de cada vez! Um dia após o outro!

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